Ringo canta Disney

O que têm os Beatles a ver com Walt Disney, a saga Star Wars e Henri Mancini?

Música que soa a Hollywood, claro! Música orientada para a melodia, com arranjos de orquestra típicos do cinema clássico, e o uso de leitmotifs para dar força à narrativa. Não estão a rever os Beatles nesta descrição? Talvez nunca tenham ouvido a Good Night.

Way too sweet for John

Ringo, que canta a música, era o Beatle “goofy”; Paul era o beatle “sexy”; George era o beatle “cool” e John Lennon era o beatle… amargo. Vanguardista, complexo, com um sentido crítico aguçado. Por que razão quis ele compor uma canção ao estilo da Disney? Amor de pai! Sim, John compô-la para o seu filho Julian.

John Lennon and his son Julian Lennon

Os primeiros singers-songwriters

Algumas pessoas poderão não saber, mas os Beatles foram os primeiros elementos de uma banda a tornar-se singers-songwriters. O seu “álbum branco” (The Beatles – Parlophone, 1968) permitiu a cada beatle expressar as suas capacidades artísticas individuais, em canções com letras confessionais e despidas da parafernália de arranjos que caracterizara o álbum anterior.

Algumas destas novas canções soavam a algo completamente diferente e não se gostava delas à primeira. Baralharam-nos por completo com a Revolution 9. Confere?

Acontece que os Beatles eram peritos em, logo depois de nos baralharem com uma música complicada, consolar-nos com uma melodia bem doce e convencional. Por isso é que logo depois da Revolution 9 somos brindados com este Natal em forma de música.

Lennon em contra-corrente

Ao trazer influências do cinema americano clássico para esta música, o John entrou em completa contra-corrente com a tendência que atravessava a composição musical para Hollywood nos anos 60: música de inspiração jazz, orientada para sons e não para a melodia. Um dos compositores que melhor encarnou essa tendência foi Bernard Herrmann, em Psycho (Alfred Hitchcock, 1960). (lamento fazer-vos recordar esta cena em época natalícia.)

Lançado em 1961, Breakfast at Tiffany’s terá sido o último grande filme dos anos 60 com música de orquestra, orientada para o leitmotif sublime de Henry Mancini, presente na inesquecível e inigualável Moon River. Anos depois, em 1967, a Disney lança O Livro da Selva. E os Beatles quase foram os escolhidos para dar voz aos quatro abutres do filme.

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1968 – “Good Night” é a “When you Wish Upon a Star” do rock ‘n roll

Com uma orquestra digna do final de uma epopeia, a lembrar muito a também inesquecível “When you wish upon a star” (1940) de Pinocchio – uma música tão marcante e distinta que continua a acompanhar, e desde sempre, o logótipo da Walt Disney Pictures, que abre todos os filmes da Disney – Good Night é a música que une dois universos paralelos, o do rock ‘n roll e o do cinema.

Conta com arranjos de orquestra compostos por George Martin, incluindo doze violinos, três violas d’arco, três violoncelos, três flautas, um clarinete, uma corneta, um vibrafone (instrumento cujo som nos transporta de imediato para Hollywood nos anos 50 e que está amplamente presente na banda sonora de Breakfast at Tiffany’s), um baixo acústico e uma harpa. Mas, mais importante, brinda-nos com um leitmotif encantador.

A era de John Williams

Na indústria cinematográfica, a banda sonora viria a regressar às suas origens clássicas com a ópera espacial Star Wars, pela batuta de John Williams. Mas algures em 1977, já depois de os Beatles se terem separado.

E by the way, consta que o John assinou a rescisão do seu contrato com os Beatles na Disney World…

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A Índia entra no Mapa (da música pop)

Rubber Soul é um dos meus álbuns preferidos dos Beatles. Com um pé em Liverpool e outro no resto do mundo, é o trabalho de fronteira entre a inocência dos Beatles e o seu amadurecimento pessoal e artístico. Os Beatles, que vinham desde sempre baralhando e reposicionando os valores da sociedade dos anos 50 e 60 (pobres pais!), lançavam novas cartas nesta matéria com canções agridoces, picantes, e já com uma pitada de crítica social – como Girl.

Was she told when she was young that pain would lead to pleasure?
Did she understand it when they said
That a man must break his back to earn his day of leisure?
Will she still believe it when he’s dead?

Em tudo o que fizeram, os Beatles foram seguidos por outros como por um rebanho. E quando o John escreveu a música singular que dá pelo nome de Norwegian Wood, diferente de todas as outras do ponto de vista da estrutura (uma música sem refrão num álbum pop?), da letra, e da instrumentação, imediatamente surgiram outros exemplos de uso de instrumentos indianos na música de origem anglo-saxónica. A música é do John, mas a escolha da sítara é do George, que desde esse momento se tornou um cada vez mais convicto seguidor da cultura indiana.

Hoje, o cruzamento de influências culturais entre estilos musicais é uma rotina. Em 1965, não! Mas há mais do que o simples uso de instrumentos indianos na música dos Beatles. A posterior Within you, without you (Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band – Parlophone, 1967) inclui entre eles um arranjo de orquestra complexo, de estrutura conversacional. Sim, é como se os instrumentos “conversassem” uns com os outros, numa estrutura de pergunta e resposta. Já tínhamos visto isso nas composições de um outro músico brilhante, Esquivel (1918 – 2002) – este, que saiba, sem qualquer relação com a música dos fab four.

Ao pousar os pés na Índia, os Beatles fizeram muito mais do que tornar a sítara um instrumento mundialmente conhecido. O psicadélico, a meditação, a música e a comida de fusão estão entre nós muito provavelmente porque os Beatles entraram – e com muito glamour – num qualquer Ashram no Norte da índia, guiados pelo seu controverso guru.

Aqui fica uma playlist para te transportar até outros mundos. Namasté!

PS – This one is for you, blue.

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A primeira vez que ouvimos um MOOG.

Moog?

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Não é por acaso que o Abbey Road é a Bíblia dos Beatles. Quando ainda não percebia muito sobre este assunto, o meu álbum preferido dos Beatles era o Sgt. Pepper. Agora, older and wiser, percebo que é no Abbey Road (Apple Records, 1969) que está tudo; este álbum é o Bosão de Higgs, o Big Bang e a absorção dos Beatles pelo buraco negro do tempo e do Espaço. Nem o mais habilidoso contador de histórias seria capaz de dar um fim tão redondinho à existência destes quatro magníficos, isso vos garanto.

Pelo meio desta história, e já que falámos em astrofísica, paira uma invenção astronómica de Robert Moog:

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O Abbey Road está pejado de sonzinhos vindos desta parede de fios e botões, a tecnologia de ponta da altura. Vêem?

Em cada música, o sintetizador é tocado com a retórica necessária; ora faz lembrar um martelo a cair sobre a cabeça da pobre Joan (sim, esta melodia tão edificante fala de um serial killer), ora uma manhã de sol no meio da neve (a mim, é o que a Because me faz lembrar).

A seguir aos Beatles, muitos usaram e continuam a usar os muitos Moogs que entretanto se inventaram. O filme “A Laranja Mecânica” (1974) tem na sua banda sonora uma das músicas mais incríveis de sempre, feita quando Wendy Carlos ousou pegar em Bach e ligá-lo à corrente eléctrica.

Para quem não conhece, há uma comunidade gigante de aficcionados de sintetizadores e de gatos que decidiram que merecíamos aceder ao melhor dos dois mundos em imagens. Lindo!

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Hey – don’t forget to always be free.

 

O primeiro produtor

George Martin – 03/01/1926 – 08/03/2016

De uma forma ou de outra, todas as cenas que os Beatles mostraram ao mundo tiveram o dedo de uma mesma pessoa. Quando falamos da junção da música clássica ao Rock, do artificial double tracking, da abordagem experimental à composição musical, da introdução de técnicas de edição de som que transformaram o estúdio em mais um instrumento, falamos das ideias de um senhor chamado George Martin.
Foi ele que conduziu os Beatles do estatuto de banda de rock básica para o de banda que mudou para sempre a face da Música, da Arte e da Cultura Popular em geral.
George Martin morreu no dia 8 de Março, com 90 anos, e eu passei o mês a ouvir Def Leppard. Cenas.
Apelidado de “o quinto beatle”, teve um impacto enorme na formação musical e artística de cada um dos elementos da banda.

Capítulo 1 – John

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A primeira vez que o John Lennon pegou numa guitarra, só com 3 cordas (porque as outras 3 estavam partidas) não estranhou. George Martin assinou contrato com os Beatles em 1962, e proporcionou-lhes os seus conhecimentos de maestro, compositor clássico e engenheiro de áudio. Talvez por isso, anos mais tarde, este mesmo John que pensava que as guitarras só tinham 3 cordas haveria de compor uma música inspirada na Moonlight Sonata de Beethoven.
De cortar a respiração, não é? Em parte, porque a voz de cada Beatle é multiplicada por três. Se quatro beatles é bom, doze é ainda melhor. Adivinhem de quem foi a ideia!

Capítulo 2 – Paul

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Quando o George Martin teve a ideia de acrescentar um quarteto de cordas à Yesterday (Help!, Parlophone, 1965), a reacção do Paul foi “Oh, não, George! Nós somos uma banda de rock & roll e não acho que seja uma boa ideia.”. Ele explica que ao tocar o violoncelo numa oitava mais baixa e o primeiro violino numa das mais altas, George Martin o ensinou como dar voz aos instrumentos de cordas para um quarteto. Tudo isto com o sentido de humor e as boas maneiras de um verdadeiro gentleman.
Hoje em dia o Paul compõe música clássica. Quase podemos apostar que as suas primeiras lições foram aprendidas com os arranjos inventados pelo quinto beatle. Quem diria?

Capítulo 3 – George

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Outro George, o George Harrison, juntou-se ao primeiro na composição do álbum “Love”, banda sonora de um espectáculo com o mesmo nome do Cirque du Soleil. Músicas dos Beatles misturadas e remasterizadas, e todos os sons do baú do George Martin trazidos à vida em novas combinações. A primeira vez que este álbum me veio parar às mãos só me consegui deitar às 5 da manhã. Este álbum é Beatles em todo o seu esplendor. Boa sorte para o encontrarem (não existe no Spotify e foi retirado do Youtube).

Capítulo 4 – Ringo

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Terá sido o George Martin que entregou a pandeireta ao Ringo e a bateria a um baterista “como devia ser” os primórdios da banda, quando foi gravada a “Love me do”? Temos a certeza de que depois fizeram as pazes: “George was the right man for us. He was full of ideas and was open to anything we threw at him. And we threw all sorts of things at him.”
Bem, talvez não.

Capítulo 5 – A Day in the Life

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Na “A Day in the Life” (Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, Parlophone, 1967), o maestro foi, claro, o George Martin. Até para ele deve ter sido arrojado interromper a sua orquestra ao som de um despertador.
Pois bem, se a vida de uma pessoa se mede em dias, esse estima-se que valha uns bons 90 anos.
Farewell, Sir!

O Primeiro Concerto de Estádio

Qual foi o vosso último concerto de estádio?

O meu foi este:

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Mesmo que o vosso não tenha sido assim tão histórico, estamos todos gratos por podermos ir a concertos de estádio – certo? Gratos aos Beatles, claro! Isto porque foi há 50 anos e meio que eles o fizeram pela primeira vez.

Shea Stadium

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Nessa altura, os Beatles dispunham de amplificadores VOX tão potentes como os de uma banda de garagem. Por isso, além de não se ouvirem entre si por causa da histeria da multidão, a multidão também não os ouvia a eles (se alguém já tiver bebés e estiver por dentro do facto de que eles apreciam ruído branco, pode pô-los a ouvir um pouco deste concerto: há momentos em que a frequência dos gritos é tão alta que ao ouvido do comum mortal tanto pode ser produzida por 60 000 raparigas loucas como pela televisão avariada lá de casa). É uma sorte que assim tenha sido, porque o John Lennon pôde praticar o seu Japonês sem ninguém se aperceber. Isso viria a dar-lhe muito jeito uns anos mais tarde.

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Este concerto aconteceu em Nova Iorque, no Shea Stadium, a 15 de Agosto de 1965, dias depois do lançamento do álbum “Help!”, e durou cerca de meia hora. Podem aproveitar que os Beatles e o Spotify se entenderam, há cerca de 15 dias, e ouvir esta playlist que eu fiz com o line-up do concerto (muitas músicas pertencem ao álbum The Beatles For Sale (Parlophone, 1964) – ou seja, rockalhada à Chuck Berry.

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Apesar de os Beatles terem continuado a existir como banda até 1970, não faltaria muito mais de um ano para que deixassem de actuar ao vivo. Com as suas limitações técnicas, histeria colectiva e criatividade, uma época assim nunca mais se repetirá. Já concertos de estádio continuará a haver com fartura, e ainda bem.

A primeira gravação de feedback de guitarra

Caros amigos, se o título deste artigo vos parece demasiado enigmático, eu simplifico:

O John Lennon inventou o Jimi Hendrix.

Deixem esta informação assentar… John Lennon invented Jimi Hendrix”.
(Obrigada, George*!)

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Esta música mostra porquê:

Podia ter sido composta há dois dias atrás, não é? Mas foi em ’67.

E agora, viajamos a 1964. Se não quiserem ouvir tudo (,hereges), basta prestarem atenção aos primeiros sete segundos da faixa:

Até 1964, os músicos só podiam encaixar-se numa de três categorias: 1) compositores; 2) performers; 3) músicos profissionais para gravar em estúdio. Os compositores só compunham para os performers, que só actuavam; e os músicos profissionais só tocavam em estúdio as músicas compostas pelos compositores. (Eram um bocado pobres de espírito, as editoras da altura, mas aqui entre nós, editaram grandes coisas.) De tal forma assim era, que o primeiro álbum dos Beatles (Please, Please Me, Parlophone, 1963), tinha 14 músicas, das quais oito eram versões de compositores diferentes (Burt Bacharach, The Chains, The Shirelles, Carole King, Phil Medley, Bert Russell…), alguns deles da Motown.

E é este o estado da arte quando em 1964 os Beatles lançam o primeiro álbum em que todas as músicas são originais. Isso foi, por si só, inovador. Mas o single “I Feel Fine” introduziu algo de realmente inesperado: pela primeira vez, o mundo ouviu feedback áudio de guitarra gravado intencionalmente numa faixa pop-rock. Esse som que se ouve nos primeiros sete segundos foi um “erro” de estúdio. Mas um erro que os Beatles entenderam ter uma qualidade estética passível de ser incorporada na música.

Os Beatles atingiam o auge da sua popularidade; o seu estatuto perante as editoras conferia-lhes liberdade para serem compositores, performers, músicos e ainda para serem “experimentais”. Por isso, enquanto outras bandas teriam sido ensinadas a jamais pousarem uma guitarra junto a um amplificador, os Beatles puderam transformar esse “erro” num elemento de composição musical. Para os amantes do Acid Rock, do Rock Psicadélico e do Rock Progressivo – e para os amantes de música em geral -, ainda bem.

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Já sei que não estamos a falar no George Harrison, mas digam lá: é ou não é o Beatle mais cool?

Resta-me desejar-vos um Feliz Natal! Deixo-vos com esta, porque eu própria a ouvi pela primeira vez num Natal há muitos anos… e nunca mais ouvi nada assim.

Três músicas com feedback de guitarra que todos ouvimos:

The Jimi Hend Experience, Foxy Lady

Nirvana, Radio Friendly Unit Shifter

David Bowie, Heroes

*em George Harrison: Living in The Material World, Martin Scorsese, 2011